Miguel Garcia recorda rábula que levou a retirar-se da Comissão Política do PS-Arcos

Miguel Garcia, antigo vice-presidente da Comissão Política do PS-Arcos em fim de mandato, arrasa a liderança de Dora Brandão, a quem acusa de deixar o partido “esfrangalhado” e “desorganizado”.

Em declarações ao Minho Digital, o ex-deputado municipal começa por recordar o caso que o levou a romper com Dora Brandão. “A presidente da Concelhia de Arcos de Valdevez era a terceira da lista sufragada pela Federação Distrital para o cargo de deputada, mas acabou preterida por Sandra Pontedeira na reunião da Comissão Política Nacional do PS [no verão de 2015], em que foram aprovadas as listas de candidatos ao Parlamento”, evoca Miguel Garcia.

E, no mesmo tom, prossegue: “Tenho um recorte de jornal que diz o seguinte: ‘António Costa substitui Dora Brandão por Sandra Pontedeira’, isto quando a eleita pela Federação Distrital havia sido a Dora Brandão”.

Sem paninhos quentes, Miguel Garcia refere que “ficaram todos mal na fotografia” com esta reviravolta “vergonhosa”. “Eu, enquanto vice-presidente da Comissão Política, fiquei completamente revoltado e perguntei à Dora Brandão se ela não ia tirar ilações sobre o ocorrido. Como Dora Brandão não soube tirar ilações, retirei-me, eu, em defesa dela”, explica Garcia, crítico em relação à forma como este processo foi conduzido pela Direção Nacional, que revogou as escolhas feitas democraticamente em sede própria.

 

Resultados das autárquicas

Este destacado militante do PS-Arcos socorre-se, outra vez, dos títulos da imprensa para falar dos resultados nas últimas autárquicas. “Não fui eu que escrevi que o ‘PSD reforçou a maioria absoluta nos Arcos” ou que o “PS teve os piores resultados de sempre’. […] Mas as pessoas que estão à frente do PS de Arcos de Valdevez acham que as votações não foram assim tão más”, recrimina.

Divergências internas no PS

“Um partido não pode funcionar desta maneira”

Miguel Garcia, enfermeiro de profissão, diagnostica várias feridas expostas no PS-Arcos.

Falta de debate interno. “No dia 17 de novembro do ano findo, realizou-se uma ‘reunião extraordinária’ sem que tivesse havido antes (2017) uma reunião ordinária sequer com militantes. Um partido, ou uma organização qualquer, não pode funcionar desta maneira”, diz.

Ou seja, “não houve reunião com os militantes para decidirmos, em conjunto, quais os candidatos às autárquicas. Disse-se que a candidatura de Dora Brandão foi eleita por unanimidade, não sei por quem, provavelmente pelo Secretariado e pela Comissão Política”, atira.

Discriminação. “Há militantes que estão a ser discriminados. Enquanto militante, não fui convidado, por exemplo, para o colóquio que o dirigente nacional José Luís Carneiro dinamizou sobre a diáspora no passado dia 6 de janeiro. Não é assim que um partido deve funcionar para unir e reforçar a militância. […] Mais: enviei, no dia 22 de outubro, um email à presidente da Comissão Política de Arcos de Valdevez para pedir a lista atualizada de militantes e quando eram as eleições à Concelhia e à Federação e ainda não recebi resposta até hoje [12 de janeiro]. […] Entretanto, pelo PS Nacional, fui informado depois, via email, de que a lista solicitada é fornecida pela Distrital e não pela Concelhia. Ajo na política, como na vida, com clareza. Faço sempre jogo limpo”.

Desorganização. “A data-limite para entrega de listas à Concelhia terminou no dia 11 de janeiro e não havia ninguém na sede do PS para receber as listas”, acusa Garcia, lembrando que “a lista de militantes tinha de estar afixada em local bem visível na sede do PS-Arcos desde o passado dia 10 de dezembro, mas nada disso aconteceu, pelo menos até ao dia de hoje [12 de janeiro]”.

 

“Nunca esteve em cima da mesa a minha candidatura à Concelhia”

Apesar de ser visto como um militante de peso, Miguel Garcia não é candidato à Comissão Política de Arcos de Valdevez. “Nunca tal hipótese foi colocada por mim. Foi uma decisão minha e só minha. Havia pessoas que me apoiavam, tanto assim que, se eu fizesse uma lista e fosse a votos, seria o vencedor à Concelhia. Tenho a certeza disso”.

Miguel Garcia não apoia ninguém, mas vai exercer o direito de votar. “Tenho 47 anos e sempre fui votar. Sou militante há muitos anos, tive oito anos fora, no período de José Sócrates, devido à reorganização dos serviços de urgência”.

Da liderança que vier a ser sufragada localmente, diz que gostava de ouvir, de viva voz, as propostas em sede própria e de ser esclarecido em relação ao programa. “Na última reunião que houve com militantes, em novembro de 2017, existiu debate e discussão. Mas só Pedro Marinho anunciou que era candidato. João Carlos Simões não disse que era candidato, apesar de ter tomado a decisão de avançar pouco tempo depois das eleições autárquicas, segundo ele revelou [ao Minho Digital] recentemente”.

 

Futuro com lições do passado

A pensar na reabilitação do PS-Arcos, Miguel Garcia dá o receituário. “É preciso que as pessoas trabalhem afincadamente a prazo e não apenas na véspera das eleições. Se o PS trabalhar todos os dias, conseguirá aumentar muito a militância. Mas temos de combater e pressionar para que o PS seja mais forte e venha a ser poder no futuro”.

Segundo o ex-dirigente, a acutilância política que o próprio protagonizou trouxe importantes conquistas para os Arcos. “Defendi e defendo sempre o concelho de Arcos de Valdevez… Por exemplo, se existe uma clínica de hemodiálise nos Arcos, tal foi fruto da minha ação reivindicativa. Com este equipamento, fez-se um investimento de 1,8 milhões de euros que deu emprego a muita gente e veio dar mais economia ao concelho”.